O que a apneia do sono tem a ver com o seu coração

Section Title Line — Dra. Carla Zonta

Quando o assunto é saúde do coração, os cuidados mais lembrados costumam ser alimentação equilibrada, atividade física regular, controle da pressão arterial e exames de rotina. O sono raramente entra nessa lista — e isso é um problema, porque o que acontece durante a noite pode ter um impacto direto sobre a saúde cardiovascular.

A apneia vai além do ronco

A apneia obstrutiva do sono acontece quando a via aérea é repetidamente obstruída durante a noite, interrompendo a respiração por alguns segundos, dezenas ou até centenas de vezes. O ronco costuma ser o sinal mais perceptível — porque é o que se ouve — mas o que importa clinicamente é o que acontece por trás dele: quedas na oxigenação do sangue e microdespertares que fragmentam o sono, muitas vezes sem que a pessoa sequer se lembre deles pela manhã.

Por que isso afeta o coração

Cada uma dessas pausas respiratórias representa um pequeno estresse para o organismo. A queda de oxigênio ativa mecanismos de resposta do corpo, incluindo aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca, para tentar compensar a falta de ar. Quando esse processo se repete dezenas de vezes por noite, ao longo de meses ou anos, ele deixa de ser um evento pontual e passa a representar uma sobrecarga real para o sistema cardiovascular.

É por isso que a apneia obstrutiva do sono não tratada está associada a maior risco de:

  • Hipertensão arterial — as oscilações repetidas de pressão durante a noite podem contribuir para o desenvolvimento ou o agravamento da hipertensão, inclusive em casos que respondem mal ao tratamento convencional.
  • Arritmias — as alterações de oxigenação e a ativação do sistema nervoso associadas às pausas respiratórias podem favorecer alterações no ritmo cardíaco.
  • Outras alterações cardiovasculares — o conjunto desses fatores, mantido ao longo do tempo, é reconhecido como fator de risco para doenças cardiovasculares mais amplas.

Um ciclo que se retroalimenta

A relação entre apneia e saúde cardiovascular também pode funcionar nos dois sentidos: pessoas com hipertensão ou outras condições cardiovasculares têm maior prevalência de apneia do sono, e a apneia não tratada, por sua vez, pode dificultar o controle dessas condições. Isso reforça por que investigar o sono deveria fazer parte, com mais frequência, da investigação cardiovascular como um todo — e vice-versa.

Sinais que merecem atenção conjunta

Se você já tem acompanhamento para pressão alta, arritmia ou outra condição cardiovascular, vale observar também sinais relacionados ao sono: ronco intenso, pausas na respiração percebidas por outra pessoa, cansaço ao acordar mesmo dormindo o suficiente e sonolência excessiva durante o dia. A presença desses sinais é motivo suficiente para levar o assunto à sua próxima consulta — seja com o cardiologista, seja com um especialista em sono.

Investigar o sono também é cuidar do coração

A boa notícia é que a apneia do sono tem diagnóstico e tratamento. Identificar precocemente o problema, por meio de uma avaliação especializada e, quando indicado, de um exame como a polissonografia, permite não apenas melhorar a qualidade do sono, mas também reduzir uma sobrecarga real sobre o sistema cardiovascular.

Cuidar do coração não é só o que acontece durante o dia. É também o que acontece — ou deixa de acontecer — enquanto você dorme.

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Dra. Carla Fabiane da Costa Zonta
CRM PR 28286 | RQE 17558 e 20207